Economía

Liberdade ou mais controle? Como será o futuro do Twitter nas mãos de Elon Musk

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Sporting cumpre no Bessa

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NOVA YORK – O que está em jogo na compra, por Elon Musk, o homem mais rico do mundo , do Twitter? A oferta de US$ 44 bilhões foi aprovada nesta segunda-feira pelo Conselho de Administração da plataforma que, agora, vai se tornar uma empresa de capital fechado.

E uma confluência de interesses pode fazer com que o impacto da aquisição da rede social pelo bilionário fundador da Tesla vá muito além dos negócios — influenciando desde os rumos da democracia nos Estados Unidos à política em diversos países.

Em meio à avalanche de fake news e suas implicações políticas, a grande pergunta que fica agora é se uma das maiores redes sociais do mundo tende a reduzir ou ampliar o controle ao que é publicado por seus usuários.

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Até agora, Musk tem deixado uma visão dúbia sobre o que classifica como liberdade de expressão, além de dizer que pretende se manter afastado da política. Em comunicado, o empresário defendeu a “liberdade de expressão”, mas prometeu combater robôs e cogitou “autenticar” todos os usuários.

‘Liberdade de expressão é a base de uma democracia’, diz Musk “Liberdade de expressão é a base de uma democracia funcional, e o Twitter é a praça digital onde temas vitais para o futuro da humanidade são debatidas”, afirmou Musk em um comunicado nesta segunda-feira.

Ele também deu sinais do que pretende mudar na plataforma: “Quero tornar o Twitter melhor do que nunca, aprimorando o produto com novos recursos, tornando os algoritmos de código aberto para aumentar a confiança, derrotando bots de spam (robôs que replicam mensagens) e autenticando todos os humanos.”

O bilionário sul-africano já vinha deixando claro que seu principal objetivo ao comprar o Twitter é apoiar a liberdade irrestrita de publicações na plataforma e reduzir o uso de marcadores ou remoções de conteúdos inapropriados.

PUBLICIDADE — É muito importante que exista uma arena inclusiva para a liberdade de expressão — afirmou Musk este mês em uma conferência. — O Twitter se tornou uma praça pública de fato, então é muito importante que as pessoas tenham tanto a possibilidade concreta como a percepção de que são livres para falar, dentro dos limites da lei.

Conheça grandes negócios no mundo da tecnologia Elon Musk, homem mais rico do mundo, compra o Twitter por US$ 44 bilhões, um preço 38% acima do valor em Bolsa da empresa em 1º de abril, antes da proposta do bilionário Foto: Chris Ratcliffe / Bloomberg Em janeiro deste ano a Microsoft anuncia a compra Activision Blizzard, dos jogos 'Call of Duty' e 'Candy Crush', por US$ 68,7 bi, maior aquisição da história da empresa Foto: Reuters Em 2016, quando a Microsoft anunciou a compra do LinkedIn por US$ 26,2 bi, era considerado o maior negócio da gigante de tecnologia Foto: David Paul Morris / Bloomberg Em outubro de 2014, o Facebook oficializa compra do WhatsApp por US$ 21,8 bi, maior negócio da empresa de Zuckerberg Foto: AFP Em outubro de 2017, os acionistas da varejista Whole Foods Market aprovaram a proposta de venda para a Amazon. O acordo foi avaliado em cerca de US$ 13,5 bilhões Foto: AFP Pular PUBLICIDADE Steve Ballmer e Tony Bates selam a compra do Skype pela Microsoft por US$ 8,5 bi, em maio Foto: Reuters / Reuters Em maio de 2021, a Amazon concluiu a compra dos estúdios MGM por US$ 8,5 bilhões Foto: Reprodução Em outubro de 2006, o Google anunciou a compra do YouTube por US$ 1,65 bilhão, em negócio que envolveu troca de ações Foto: Reprodução ‘Alguém que você não gosta pode falar algo que você não gosta?’ Apesar de seu próprio histórico pessoal de tolerância com discursos contrários aos seus interesses ser dúbio, Musk definiu assim, na conferência, o que seria na sua visão a liberdade de expressão: 

— Um bom sinal se há liberdade de expressão é o seguinte: alguém que você não gosta pode falar algo que você não gosta? Se a resposta é sim, então há liberdade de expressão.

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Musk costuma dizer que prefere ficar longe da política, mas há bons motivos para suspeitar que tendo o Twitter como uma empresa sua, ele poderia reativar a conta do ex-presidente americano Donald Trump.

Trump foi banido permanentemente do Twitter após a invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado, “devido ao risco de novas incitações à violência”, como justificou a plataforma na ocasião. Nesta segunda-feira, o ex-presidente disse que não voltaria ao Twitter , mesmo sob nova direção.

PUBLICIDADE Na mesma conferência em que defendeu a liberdade de expressão, Musk disse que seria “muito cauteloso” em relação a banimentos permanentes em plataformas como o Twitter.

Em outros momentos, sua visão de mundo se aproximou à de Trump, como há dois anos, quando o então presidente americano apoiou os planos da Tesla de reabrir sua fábrica na Califórnia em pleno lockdown do estado para conter a Covid.

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E, em tuítes recentes, o bilionário aparentemente absorveu muitas das ideias da extrema direita americana em sua guerra cultural: ” A mentalidade ‘woke’ está fazendo a Netflix impossível de se assistir”,  disse Musk referindo-se a forma politicamente correta de abordagem de temas como racismo e desigualdade de gênero.

Aposta dos conservadores O Politico, um dos mais influentes sites de análise política dos EUA, pontuou, recentemente, que os políticos conservadores americanos consideram que Trump será o “salvador do Twitter“.

Em entrevista ao site, o deputado republicano Darrell Issa, da Califórnia, disse que Musk “poderia levar o Twitter a uma direção muito melhor” para aqueles que, segundo Issa, foram “injustamente silenciados ou censurados pela ofensiva do Twitter contra o discurso conservador e contra as ideias de que a plataforma não gosta”. 

Veja quem são os 10 futuros trilionários Elon Musk – Em 2022, sua fortuna é avaliada em US$263 bilhões. Deve conquistar seu primeiro trilhão em 2024, aos 52 anos Foto: POOL / via REUTERS Gautam Adani e família – Em 2022, ele tem US$ 93 bilhões. Deve conquistar seu primeiro trilhão em 2025, aos 62 anos Foto: Reprodução Zhang Yiming, da empresa de tecnologia ByteDanceAtualmente, tem US$59 bilhões. Deve bater US$ 1 trilhão em 2026, aos 42 anos. É o mais jovem da lista Foto: Divulgação Bernard Arnault, da grife Louis Vuitton – Hoje, possui US$186 bilhões. Chegará ao trilhão em 2029, aos 79 anos Foto: Reprodução Mukesh Ambani, da Reliance Industries – Tem atualmente US$ 97 bilhões. Em 2029, aos 71 anos, terá seu primeiro trilhão Foto: Divulgação Pular PUBLICIDADE Jeff Bezos, fundador da Amazon – Patrimônio atual avaliado em US$188 bilhões. No futuro, em 2030, aos 65 anos, deve chegar ao trilhão de dólares Foto: Richard Brian Larry Page, cofundador da GoogleFortuna estimada em US$119 bilhões. Chegará ao trilhão no ano 2032, aos 58 anos Foto: Divulgação Sergey Brin, também da Google – Em 2022, tem US$115 bilhões. Em 2032, aos 58 anos, a fortuna suburá para US$1 trilhão Foto: Divulgação Steve Ballmer, ex-presidente da MicrosoftTem atualmente US$ 99 bilhões. O primeiro trilhão chega em 2032, nos seus 75 anos Foto: Agência O Globo Michael Dell, da DellSeu patrimônio é avaliado em US$ 60 bilhões. Aos 67 anos, em 2033, deve bater a casa dos trilhão Foto: Reprodução PUBLICIDADE “Os censores do Twitter estão enlouquecendo porque não podem comprar o silêncio de Elon Musk. Claramente, as big techs não conseguem lidar com quem pensa diferente delas”, tuitou a senadora republicana pelo Tennessee Marsha Blackburn.  

Musk sempre foi um grande doador do American Civil LIberties Union, entidade que defende o “livre discurso” de todos os candidatos e que argumenta que todos os políticos deveriam ter acesso ilimitado e sem travas às mídias sociais, não importa os riscos envolvidos. 

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É por isso que a proposta de Musk pelo Twitter parece ser bem mais do que uma aquisição de negócios, mas sim uma “compra política”, remetendo a episódios do passado, como a aquisição, pelo bilionário australiano Rupert Murdoch, do New York Post em 1976 e do Wall Street Journal em 2007. 

Twitter lança 'Comunidades', que cria grupos com interesses comuns na rede social Foto: Chris Ratcliffe / Bloomberg Musk, que já disse “não ligar para as questões econômicas” de comprar o Twitter, parece querer um diferente tipo de poder: controlar um dos maiores megafones do mundo e, com isso, conseguir impor sua ideologia libertária em temas como moderação – ou falta de moderação – e desinformação. 

PUBLICIDADE E assim como Murdoch já foi acusado de usar suas publicações para defender os interesses de seus negócios, Musk também terá não só motivações pessoais como financeiras para reabilitar vozes hoje banidas pelo Twitter. Por exemplo, se Trump for reeleito e a Tesla conseguir retomar seus créditos tributários para a produção de veículos elétricos, Musk pode ser tentado a permitir sua volta ao Twitter

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E, com mais de 80 milhões de seguidores, Musk já usa o Twitter como uma máquina poderosa de marketing para suas empresas. 

A pressão política pode ser ainda mais forte fora dos Estados Unidos. Em 2020, o Twitter começou a marcar como “mídia de filiação estatal” as contas de membros do governo e de grupos de comunicação governamentais da China.

Além de marcar essas publicações, a plataforma adotou medidas para que esses tuítes não tivessem grande alcance na rede. A Tesla tem grandes interesses comerciais na China e, para atingi-los, precisa do apoio do presidente Xi Jinping. Como Musk lidaria com essa moderação do Twitter em relação aos posts de órgãos estatais chineses? 

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E, se outro titã do mundo tecnológico, Jeff Bezos, da Amazon, prometeu — e até agora cumpriu — não misturar negócios com decisões editoriais após sua aquisição do Washington Post em 2013, Musk parece estar fazendo justamente o contrário.  

O bilionário não cansa de repetir que “vai se envolver” no Twitter. Então, qualquer que seja a ideologia que ele poderá implantar caso compre a plataforma, isso terá impacto não só para os acionistas do Twitter — mas para todos nós.