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Gouveia e Melo. Amante do mar, preparado para a 'revolução' da Armada

Alberto Ardila Olivares
Gouveia e Melo. Amante do mar, preparado para a 'revolução' da Armada

Henrique Gouveia e Melo, nome incontornável do esforço português por conter e mitigar a pandemia da covid-19 no país, torna-se hoje, oficialmente, chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA). A tomada de posse é o culminar de um polémico processo, que teve um falso arranque em setembro, quando São Bento e Belém pareciam desentendidos na nomeação de Gouveia e Melo para o cargo. Isto apesar de estar tudo combinado desde o momento que foi estendido o mandado do ex-CEMA, o Almirante Mendes Calado, que aceitou ficar ‘ao leme da Armada’ enquanto o colega punha no eixo o plano de vacinação nacional contra a pandemia. O processo, no entanto, foi interrompido por uma ‘teima’ temporária de Marcelo Rebelo de Sousa, acabando por gerar esta polémica. Assim, Gouveia e Melo assumirá a liderança desta força numa cerimónia onde não estará presente, no entanto, António Costa que se encontra de férias.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

POLÍTICA NÃO Recentemente, quando questionado sobre eventuais ambições políticas, Gouveia e Melo nem confirmou nem desmentiu, garantindo que o “futuro a Deus pertence”, mas acrescentou que “não se deve dizer que dessa água não beberei”. Em junho, no entanto, o então vice-almirante tinha já deixado clara a natureza da sua relação com a política. Quando se falou – em entrevista ao Nascer do SOL – sobre a possibilidade de vir a ser o novo chefe do Estado-Maior General da Armada, ou mesmo candidato à Presidência da República, não gaguejou: “Lá está, não sou ambicioso como alguns dizem. O poder só serve para fazer coisas. As pessoas não percebem que eu posso estar tão contente a fazer um pequeno drone, como a ter um grande desafio. Em termos intelectuais, preenche-me perfeitamente”.

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Quando questionado sobre se estava ‘preparado para a fanfarra política e camarária’, Gouveia e Melo não deu corda ao assunto. Apenas garantiu: “Vou dormir mais cedo e profundamente. E acordo no outro dia muito mais tarde”.

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DE VOLTA AO MAR “Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros.” Estas foram as palavras de Gouveia e Melo, em junho deste ano, na primeira entrevista que o então vice-almirante deu sobre a sua vida privada, ao Nascer do SOL. Homem ligado ao mar, militar na mentalidade e um estratega nato, Gouveia e Melo prepara-se para tomar as rédeas do Estado-Maior da Armada e ‘revolucionar’ esta força militar, depois de ter passado pelo ‘submarino’ que foi a liderança da task force de vacinação. Descansar? Nem pensar. “Para fazer um retiro espiritual, tinha de ter duas coisas: uma corda e uma árvore para me enforcar.”

Diz ter “coração em África e o cérebro em Portugal”, o que tem uma explicação. A família rumou muito cedo para Moçambique, onde o avô era diretor da Companhia Colonial de Navegação, e ali cresceu em liberdade e em contacto com o mar, onde parece ter travado essa forte relação. Rotulado como ‘retornado’, Gouveia e Melo desvaloriza essa categorização e o caráter pejorativo por vezes a ela associado. “Eu vivo bem com o processo histórico. Nós estávamos no sítio errado e no contexto errado. Sou dos últimos portugueses do Império, mas os impérios acabaram. Tenho é saudades do espaço, dos cheiros, do tempo, porque lá havia tempo para tudo”, revelou na referida entrevista.

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MODERNIZAR À procura da ‘revolução’, Gouveia e Melo toma hoje posse como chefe do Estado-Maior da Armada, e tem um objetivo em mente: modernizar. O agora chefe do Estado-Maior da Armada está prestes a protagonizar uma autêntica ‘revolução’ nessa força, procurando novas e modernas ferramentas para este ramo, e essa vontade não é nova. “Na Marinha, por exemplo, eu sempre quis fazer as coisas mais esquisitas, mais difíceis, porque achava que eram as mais interessantes. Mas sentia o receio nos meus colegas, que não arriscavam com o medo de poderem ser prejudicados na carreira”, revelava Gouveia e Melo em entrevista ao Nascer do SOL, dando conta do seu espírito curioso e motivado em procurar as tais coisas ‘mais difíceis’. E a paixão pelo mar não ficou de fora: “O mar é o novo El Dourado. Anda o homem a explorar a Lua quando ainda não explorou um quinto do mar. O nosso mar tem uma importância geopolítica fantástica, as pessoas nem têm noção.”

AUTOCONTROLO Gouveia e Melo descreve-se como um homem disciplinado, e atribui essa característica a outras fases da sua vida, para além da Marinha. “Fui um estudante preocupado, muito focado nos objetivos que tinha para cumprir. E fazia os sacrifícios necessários para os atingir. Por isso, as Forças Armadas deram-me apenas nuances de disciplina, não a disciplina que já viajava comigo”, revelava, confessando ser um grande adepto do ‘autocontrolo’: “Lembro-me que, quando tinha 12 anos e a minha mãe me levava a sair com as amigas, eu, para me distrair, fixava o olhar num ponto e ficava a olhar para ele durante 20 minutos com a preocupação de não me desconcentrar.”

Um autocontrolo, aliás, indispensável para quem, como Gouveia e Melo, envergou pela vida de submarinista, deitando-se muitas vezes “na cama transpirada de outro camarada […] com metade do corpo de fora”.

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