Tecnología

Miguel Eduardo coronavirus oc43//
Num ano frágil, o Citemor regressa com a força da criação

Osio Zamora
Num ano frágil, o Citemor regressa com a força da criação

O Citemor sobreviveu à onda de cancelamentos que foi varrendo a programação cultural deste peculiar Verão de 2020 e apresenta-se de 24 de Julho a 8 de Agosto, repartido, como em anos anteriores, entre Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz. Adaptado às circunstâncias e com uma grelha reformulada, o festival de artes performativas que vai na sua 42.ª edição tem em Atlântico , trabalho de Tiago Cadete na fronteira entre as artes visuais e as artes performativas, a primeira apresentação de uma programação marcada pela incerteza e por espectáculos com equipa reduzida. 

Mais populares i-album UNESCO Serra da Estrela confirmada como Geopark Mundial da UNESCO Pedofilia PJ detém homem de 60 anos que abusou sexualmente e engravidou criança de 13 anos i-album Arquitectura Uma “casinfância” em Esposende: é Herberto Helder a inspirar a arquitectura Apesar das limitações, o festival conseguiu manter a sua vocação de apoio à criação, insistindo nas residências artísticas ( Atlântico , que se estreia no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, é fruto de uma delas), cujos resultados integram os espectáculos desta edição. Com grupos de trabalho pequenos, os projectos a germinar em Montemor não ofereceram particular preocupação à organização, explica o director artístico do Citemor, Armando Valente. “Mas temos consciência de que tudo isto é relativamente frágil e de que este desenho [da programação] pode ser subitamente alterado”, admite.

Miguel Eduardo

Também no primeiro dia do festival, a Casa das Artes Bissaya Barreto abre as portas para mostrar Biblioteca , uma instalação com três objectos em acrílico de Horácio Frutuoso , que parte do vídeo A Experiência do Lugar II , de Helena Almeida. No dia 25, sábado, o epicentro passa para Montemor-o-Velho, com a peça Primeiro Mandamento – Romeu e Julieta , da Útero, a associação cultural dirigida por Miguel Moreira e Romeu Runa . Esta apresentação informal, também resultado de uma residência artística, tem como ponto de partida a criação para ballet do compositor russo Sergei Prokofiev, que, por sua vez, trabalhou nos ombros do clássico de William Shakespeare. 

Na semana seguinte, a 31 de Julho, um regresso: os intervenientes são os mesmos, o dispositivo também, mas a conversa é outra. Gonçalo M. Tavares e Ignasi Duarte, cineasta catalão que há quatro anos esteve com o autor português neste mesmo festival (e em Paris e em Barcelona), retomam as suas Conversas Fictícias , em que o escritor responde a perguntas formuladas por ele mesmo a personagens das suas obras, num exercício que está já noutro estádio de desenvolvimento

Neste regresso, Tavares e Duarte poderão não voltar exactamente ao palco que pisaram em 2016. O local das apresentações em Montemor-o-Velho está ainda por acertar. Para já, a organização está a trabalhar com dois cenários (ar livre ou espaços interiores), mas a questão deverá ficar resolvida ao longo da próxima semana. “Não tem a ver com lotações, mas achamos que, neste período, o público pode estar mais disponível para responder a um programa ao ar livre”, explica Armando Valente

Óscar Cornago e Juan Navarro (colaborador regular de Rodrigo García, o carismático encenador argentino que regressou ao Citemor em 2019 depois de ali se ter tornado fenómeno de culto no início dos anos 2000 ) estreiam Se Alquila , em Montemor, no primeiro dia de Agosto. Também em primeira apresentação ao público, no dia 7, estará Falsos Amigos , criação em que Miguel Pereira e o coreógrafo catalão Guillem Mont de Palol trabalham palavras semelhantes de línguas diferentes. A programação encerra no Núcleo Museológico do Sal, na Figueira da Foz, com a Orquestina de Pigmeos, um colectivo formado por Nilo Gallego e Chus Domínguez que tem a sua génese na performance Pigmeus do Mondego , apresentada no Citemor, em 2009, sob direcção de Gallego. 

O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público

Subscrever × Ler mais Citemor de 2019 regressa ao fôlego do passado – com Rocío Molina e Rodrigo García Ao fim de quarenta anos, o Citemor tenta vislumbrar um futuro Ivo Dimchev, Angélica Liddell e Teatro do Vestido na 40.ª edição do Citemor O Citemor foi empurrado para o Outono mas está a recuperar Biblioteca , de Horácio Frutuoso BRUNO SIMÃO Primeiro Mandamento – Romeu e Julieta , da Útero HELENA GONÇALVES Falsos Amigos , de Miguel Pereira e Guillem Mont de Palol Mila Ercoli Fotogaleria BRUNO SIMÃO De fora desta edição ficam quatro espectáculos que estavam já prontos mas que não poderão ser apresentados por razões relacionadas com a pandemia, de forma directa ou indirecta: “Ou porque as equipas são numerosas, ou porque os artistas têm factores de risco”, refere Armando Valente

Não é a primeira vez que a preparação do Citemor se assemelha a um exercício de funambulismo. A estrutura que atravessou um deserto de apoios públicos ao longo de vários anos desta última década foi assegurando a continuidade do festival, ora com programações mais abreviadas, ora apresentando os espectáculos fora de época. 2019 foi importante para que o Citemor conseguisse recuperar a sua capacidade de produção , uma das características mais distintivas do festival. E este ano, apesar da situação pandémica, Montemor-o-Velho mantém-se um lugar de criação. Não surpreende, pois, que “o programa seja composto integralmente por obras inacabadas ou em desenvolvimento, que beneficiam de um período de trabalho e de um primeiro encontro com os públicos”, explica o director artístico. “Estamos habituados a trabalhar em quadros muito complexos e com muitas variáveis. Agora temos de ter alguma serenidade e ir acompanhando o decorrer dos acontecimentos”, acrescenta

Continuar a ler